Como é ser o símbolo de um novo movimento? Como atender às expectativas? Em prol da própria sobrevivência enquanto banda, os americanos do The Strokes optaram por simplesmente não atender.
Difícil dizer se foi uma atitude deliberada mas, a cada lançamento, maior a capacidade do grupo em soar divisivo aos olhos dos fãs e da crítica, não fazendo o que se espera deles — para o bem ou para o mal.
Aproveitando o lançamento de Reality Awaits, novo trabalho do grupo formado em 1998 na cidade de Nova Iorque por Julian Casablancas (vocal), Albert Hammond Jr (guitarra), Nick Valensi (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fabrizio Moretti (bateria e percussão), montei abaixo um ranking dos seus sete trabalhos de estúdio, organizados do pior para o melhor. Todo mundo que lê essas listas já sabe, mas como o óbvio sempre precisa ser dito, lá vai: ranking baseado apenas no meu gosto pessoal. Convido os leitores a mandarem os seus, para discordarmos todos juntos!
FIRST IMPRESSIONS OF EARTH (2006)

As primeiras impressões aqui são de fato boas: mantivesse o pique das três ou quatro primeiras músicas, teríamos um belo disco, mesmo sem alterar um milímetro sequer da fórmula que os fez famosos. Talvez o trabalho tenha sofrido com a troca de produtores, já que Gordon Raphael, que trabalhou com o grupo nos dois primeiros e bem-sucedidos álbuns, participou apenas das sessões iniciais, sendo então substituído por David Kahne, trazido pelo guitarrista Albert Hammond Jr., o que, segundo consta, levou a conflitos criativos com os demais integrantes. Como resultado, a sequência da tracklist vai se tornando cada vez menos inspirada ao longo de seus inchados 52 minutos e, ao chegar ao final, a sensação é de fim de festa e de que não sobrou nada no fundo do baú. Não à toa, o que se segue é um período maior de inatividade no grupo.
ANGLES (2011)

Depois do desgaste decorrente das turnês e do cansaço artístico apresentado no terceiro disco, era necessário parar e buscar novos ares. Albert Hammond Jr. e Julian Casablancas foram trabalhar suas carreiras solo. Reagrupar e voltar a ser criativo enquanto grupo depois desse período não foi nada fácil, como bem relatado em matéria recente do site Pop Fantasma (https://popfantasma.com.br/albert-hammond-jr-strokes-angles-bagunca/) sobre as gravações do 4º disco da banda. Era necessário mudar, mas, em meio a tantos problemas, Angles acaba ficando no meio do caminho: não se desvincula completamente do som que os fez famosos — soando ainda mais cansados da fórmula — mas apresenta bom potencial para mudanças, como na abertura mezzo reggae de Machu Picchu e nos synths de Games. Claramente, nem tudo funciona, e a crítica, de má vontade após o período de hype do início da banda, não embarca. Mas não é tão ruim como se costuma pintar por aí.
REALITY AWAITS (2026)

Difícil ranquear um disco lançado recentemente, mas listas são coisas mutantes, e talvez esse seja realmente um trabalho a ser mais bem avaliado com o tempo. Dito isso, o auto-tune na voz de Casablancas é naturalmente o assunto mais falado desde o lançamento. O artifício chega a constranger em alguns momentos, como por volta dos 2 minutos e meio de Lonely in the Future, e em outros soa apenas desnecessário. Quando utilizado com maior parcimônia, a partir da segunda metade do disco, especialmente na sequência de Going to Babble On e Going Shopping, não interfere tão negativamente no resultado. Considerando que temos aqui um bom repertório, seguindo na pegada mais intimista de algumas coisas do álbum anterior, fica a curiosidade de como ficaria o álbum sem esse excesso de efeitos. Nas letras, o Strokes expande muitos dos posicionamentos políticos expostos em shows recentes, além de questões mais pessoais como o envelhecimento. As opções de produção parecem visar uma divisão entre o “ame ou odeie”, muito própria dos tempos polarizados das mídias sociais, e não muito diferente de tudo que a banda tem feito desde Angles. É a velha história do “falem mal, mas falem de mim”, que funciona melhor a cada dia que passa. Por aqui, só para contrariar, não achei nem tanto ao céu, nem tanto à terra.
COMEDOWN MACHINE (2013)

Desmobilizados após a problemática confecção de Angles, e ainda devendo um disco para a gravadora (o que explica a ironia da capa, destacando muito mais a RCA que o próprio Strokes), o futuro não parecia muito promissor para os nova-iorquinos. Lançar a esquisitíssima One Way Trigger como primeiro single mostrou o quanto a banda estava despreocupada com as reações alheias àquela altura do campeonato, tanto que não houve qualquer tipo de trabalho de divulgação, quanto menos shows. Analisando hoje, é claramente um disco em que a transição para um novo tipo de som é feita com mais coragem que em Angles. Coisas como 80’s Comedown Machine andaram, para que At the Door pudesse correr no disco seguinte. Assim como músicas mais intimistas, como Tap Out e Chances, que ainda tateavam o que o grupo poderia se tornar. Em outros momentos, o Strokes “clássico” se mostra presente e revigorado, como em 50/50 e Partners in Crime.
ROOM ON FIRE (2003)

Com o sucesso da estreia e a rodagem na estrada, o grupo surge confiante para a sequência, disposto a não mexer no time que estava ganhando. Deu resultado: novamente sob o comando do produtor Gordon Raphael, muitas das melhores músicas do grupo estão aqui, como Reptilia e 12:51, além de momentos mais eufóricos e pop, como Between Love & Hate. Dispostos a aproveitar o momento, sabendo que ele era efêmero, como cita a letra de Under Control (“You are young, darling / For now, but not for long”).
Cleber Facchi, no seu Cozinhando Discografias no site Música Instantânea, resumiu bem: “Poucas vezes ‘mais do mesmo’ serviu de forma tão assertiva quanto neste disco.”
THE NEW ABNORMAL (2020)

De onde menos se espera, daí é que não vem nada mesmo? Errado! Parecia que o fim do contrato com a gravadora e a ausência de divulgação do trabalho anterior, aliada aos desentendimentos cada vez mais públicos entre os integrantes, tornava a chegada de um novo disco do The Strokes cada vez mais improvável. Pois ele não só veio, como é um belo trabalho, que consolida as mudanças que o grupo vinha tentando implementar em sua sonoridade já há alguns anos. Os acenos aos anos 80 funcionam melhor, como em Brooklyn Bridge to Chorus. At the Door, totalmente conduzida por synths, uma discreta guitarra e nenhum elemento percussivo, foi uma escolha mais uma vez ousada, porém dessa vez acertada, como single de apresentação do trabalho, que contém outros momentos muito inspirados, mesmo quando intimistas, caso de Why Are Sundays So Depressing e o encerramento, com Ode To The Mets. Belíssimo disco, que conta com a também bela capa com a pintura Bird On Money (1981), de Jean-Michel Basquiat.
IS THIS IT (2001)

O último espasmo de popularidade do rock no mainstream da música mundial veio através de garotos bem-nascidos e calculadamente mal-vestidos, de postura blasé, e que traziam em seu DNA muito do que a cidade de Nova York trouxe de melhor para a cultura pop, como a música e a arte do Velvet Underground, as guitarras entrelaçadas do Television e as histórias sobre festas, drogas e o lado sujo da Big Apple. Depois de tempos sombrios, o rock voltava a funcionar nas pistas de dança com o sucesso massivo de Last Nite e Someday, mas, para além delas, trazia também uma produção deliberadamente mais desleixada, que colocava sob os holofotes a crueza do rock de garagem. Na cola do The Strokes vieram também de Nova York o Interpol, o Yeah Yeah Yeahs e vários outros mundo afora. O rock estava salvo mais uma vez? Não interessava, o que interessava era se divertir. Um clássico.




