
fish narc: “frog song” (K Records)
- my ceiling
- old band
- boxy volvo
- return in flames
- crystal ball
- can you ever really know?
- cluefinder
- interstate
- never better
- gas station
- blueberry
- disregulated
Imagine alguém que nasceu quando o mundo inteiro estava de olho no rock alternativo. Não bastasse isso, esse alguém nasceu no berço do grunge em Seattle. É exatamente isso que aconteceu com Benjamin Friars-Funkhouser, conhecido pelo nome artístico fish narc, nascido em 1992, no momento em que a música alternativa estava em seu auge. Friars não chegou a viver essa revolução, mas musicalmente absorveu muito dela.
Longe de ser uma cópia do grunge de Seattle, fish narc bebe na fonte alternativa, mas com uma pegada ainda mais midwest emo, com belas melodias e distorção na medida certa. Assim foi concebido seu quarto trabalho, “Frog Song”. Engana-se quem pensa que esse é mais um músico que teve a sorte de gravar um disco incrível por acaso.
Benjamin começou muito jovem tocando em bandas punks locais, mas foi como produtor que acabou entrando profissionalmente na música, juntando-se aos coletivos Traxxhouse e GothBoiClique. Junto a eles, tornou-se um dos pioneiros da fusão emo rap, já morando em Los Angeles.
Foi lá que conheceu outros nomes do movimento e produziu artistas como o falecido Lil Peep, que fazia parte do GothBoiClique. Apesar de ter colaborado com “Come Over When You’re Sober”, foi em “Goth Angel Sinner” que ele se tornou o principal arquiteto do som do disco, com um estilo de gravação mais despojado e batidas de guitarra minimalistas com 808s.
Considerando essas credenciais e sabendo do seu envolvimento com o punk no início da carreira, o que se ouve no quarto álbum do fish narc é algo que até então ele não havia alcançado: deixou o emo rap de lado e dedicou-se muito mais ao rock.
Se em outros trabalhos ele flertava com a parafernália eletrônica do estilo que o revelou, aqui ele está mais cru do que nunca. Em faixas como “Never Better”, lembra muito a sonoridade densa e arrastada dos tempos acústicos do Alice In Chains. Alguém que nasceu naquela região dificilmente não seria influenciado pelo grunge, mesmo que instintivamente.
Aliás, essa fase final do álbum é bem melancólica, como em “blueberry”, num clima shoegaze ainda mais acentuado pelas guitarras em camadas que entram no meio da música.
Por outro lado, temos um início de álbum que dialoga muito com o centro-oeste americano do American Football e o noise rock de bandas como Dinosaur Jr, uma das referências americanas do rock alternativo. Faixas como “my ceiling” e “old band” possuem ganchos envolventes, melodias cantarolantes com guitarras sujas na medida.
Já outras como “boxy volvo”, “return in flames” e “crystal ball” apresentam qualidade melódica e uma construção harmônica ímpar, misturando o universo acústico do violão com leves interferências da guitarra elétrica.
Para quem gosta de mais guitarras, elas encontram-se no meio do álbum, onde faixas como “can you ever really know?” e “cluefinder” dão o tom punk necessário com microfonias junto às distorções, mas, como sempre, sem perder a característica de Benjamin Friars-Funkhouser de criar ótimas melodias.
Liricamente, o álbum transita entre momentos românticos e reflexões interiores.



