Existe uma ironia curiosa nos tempos do streaming: nunca foi tão fácil ouvir música e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil se encontrar em meio a oferta exponencial de conteúdo, não só musical. É por isso que as ‘tags’, tão utilizadas na plataforma Bandcamp, só para ficarmos em um exemplo, são uma ferramenta tão valiosa. Antes mesmo de apertar o play no novo álbum do This Lonely Crowd, a banda já entrega o mapa: shoegaze, metal e post-rock. Mas como fazer funcionar um som que agrega elementos díspares, apesar de tão habituados aos porões do underground? A resposta está em Eldritch Magnificence, nono trabalho dos curitibanos.
O grande acerto do grupo é não fazer de cada música um estudo específico de cada um dos subgêneros, fazendo a transição entre eles de forma mais fluída ao longo da tracklist. Há momentos em que o andamento de bateria remete ao black metal, em outros as guitarras carregam aquela parede de som noventista que inevitavelmente lembra Smashing Pumpkins, talvez a maior referência no som da banda.
Depois da introdução instrumental de ‘A vast and majestic cosmic drama’, ‘Doubt of a Shadow’ já mostra a que veio, acelerando o pulso sem abrir mão da melodia. Em ‘Mimesis’, segundo single do disco, o baixo sujo de Encantatriz na introdução sustenta uma atmosfera densa, enquanto as três (!) guitarras, tocadas por Raunip, Boni Dio e Ogion (este também nos vocais) alternam entre dobras que garantem o peso, ao mesmo tempo em que apresentam variações de clima e dinâmica, como fica claro nos dedilhados de guitarra e texturas de ‘Which mask is your mirror’.
A produção do disco é responsabilidade de Thra’shbeard (que também toca bateria no álbum), que foi gravado entre agosto de 2024 e março de 2026 no O.r.t.a. Studios, em Curitiba, e lançado pelo Sinewave, selo que há anos dá espaço para a música experimental e subterrânea brasileira.
Eldritch Magnificence ainda revela uma preocupação evidente com a questão estética e conceitual, a partir da bela arte de capa de Laura G. (outro aspecto que lembra os Pumpkins, em especial do período “Mellon Collie…”) e com letras que possuem inspirações literárias. E há um detalhe que diz muito sobre o momento atual: no release, a banda faz questão de afirmar que o disco foi composto e executado sem o uso de inteligência artificial. Não como estratégia de marketing, pois me parece que o grupo é consciente do espaço que esse tipo de som ocupa hoje em dia, mas como uma declaração de princípios.
No fim das contas, Eldritch Magnificence não impressiona por misturar gêneros, pois isso já não é novidade há muito tempo. O que impressiona é a forma com que o This Lonely Crowd faz essa mistura soar natural. Em vez de tentar reinventar a roda, a banda escolhe simplesmente escrever boas canções, sem se preocupar com apelo mercadológico ou com uma suposta originalidade, pois personalidade própria o trabalho já apresenta. E para quem ainda acredita que as guitarras altas e pedais ligados, bem como as sonoridades consolidadas nos anos 90, continuam sendo uma boa combinação, este é um disco que merece ser descoberto.
Eldritch Magnificence está disponível em todas as plataformas digitais.




