Everything But The Girl – 30 anos de Walking Wounded

Nos anos 90, em meio à diversidade de movimentos musicais explodindo no mundo todo, tais como o grunge e, posteriormente, o britpop, uma das coisas que surgiram com força foi a cultura do remix. Com a adesão e o desenvolvimento da música eletrônica, o remix acabou virando praxe para muitos artistas e, em alguns momentos, até uma coisa meio banalizada. Mas para alguns nomes ele serviu como um verdadeiro redirecionamento de carreira. E talvez poucos casos sejam tão emblemáticos quanto o do Everything But The Girl.

Já em seu sexto disco, Amplified Heart (1994), em uma carreira de números e postura discretos, o casal Ben Watt e Tracey Thorn resolveu apostar numa sonoridade mais acústica, em contraponto ao pop com toques jazzísticos dos discos anteriores, mas seguindo na contramão da barulheira do grunge de um lado e da eletrônica big beat raivosa de nomes como o Prodigy. Entre as músicas do disco estava Missing, uma canção melancólica que parecia destinada a ser apenas mais uma bela faixa dentro da elegante discografia da dupla.

Mas aí entra Todd Terry.

O produtor norte-americano resolveu remixar Missing e, de maneira improvável, transformou a música num fenômeno mundial. O remix explodiu nas pistas e nas rádios, e colocou o Everything But The Girl diante de um público muito maior.

Ao mesmo tempo, outras coisas contribuíram para uma aproximação do duo com sonoridades eletrônicas, sendo que uma delas foi a participação de Thorn em duas músicas do álbum Protection (1994), do Massive Attack.

Além disso, desde 1992 Ben Watt convivia com um distúrbio autoimune extremamente raro e fatal chamado Síndrome de Churg-Strauss. Sua recuperação foi longa e lenta, e envolveu uma dieta radicalmente restrita.

Em 1993, enquanto se adaptava à nova vida, Watt passou a se interessar cada vez mais por computadores e sequenciadores, o que foi o início de sua jornada para se tornar produtor. 

Como relatado na resenha da Pitchfork sobre o disco de 1996, na mesma época, Watt mergulhou de cabeça na cena drum ‘n’ bass de Londres, e seu entusiasmo acabou convencendo Thorn a acompanhá-lo na noite de clubes.

Dois anos depois, surge então Walking Wounded, já abraçando essa transformação. O disco chega buscando dialogar diretamente com aquele universo eletrônico que havia aberto novas portas para a dupla. Só que o mais interessante é justamente o fato de que Ben Watt e Tracey Thorn conseguem fazer isso sem perder a identidade previamente construída.

O disco é, naturalmente, totalmente produzido e tocado por Ben Watt, com vocais e letras de Thorn, e absorve uma variedade de subgêneros ligados à música eletrônica da época, tais como o Trip-hop, o house e drum and bass. E o mais impressionante é que nada disso descaracteriza o Everything But The Girl.

De certa forma, é impossível negar que o EBTG seguia uma tendência com forte apelo comercial, e a volta de Todd Terry para mais um remix, dessa vez do single Wrong, não nos deixa mentir, tão pouco a vendagem de mais de 1,3 milhões de cópias. Mas o jeito como a dupla incorpora essas novas texturas eletrônicas não elimina os elementos de jazz, pop sofisticado e melancolia que já estavam presentes nos trabalhos anteriores, o que torna tudo irresistível.

Depois dele ainda viria Temperamental, de 1999, uma continuação natural, mas um pouco mais truncada, dessa fase eletrônica. Mas logo depois o duo entraria em hiato. Ben Watt e Tracey Thorn passaram a se dedicar mais à vida em família — eles têm três filhos — e o Everything But The Girl acabou ficando distante dos estúdios por muitos anos.

O retorno com material inédito só aconteceria décadas depois, em 2023, com o lançamento de Fuse, um disco que também conversa muito com ao som estabelecido em Walking Wounded, e que nos ajuda a lembrar da relevância do Everything But The Girl na música pop feita hoje em dia.

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