“Secret Love” do Dry Cleaning abre 2026 mostrando a banda londrina em território mais etéreo sem abandonar o sarcasmo que a tornou conhecida.
Lançado em 9 de janeiro, o sucessor de “Stumpwork” conta novamente com a voz falada de Florence Shaw, agora cercada por uma produção minuciosa de Cate Le Bon. A escolha resulta em texturas que flutuam entre o conforto e o desconforto, contraste que define todo o repertório.
Logo na abertura, “Hit My Head All Day” retrata o bombardeio diário de informações ao transformar um sopro tranquilo em um funk hesitante. A faixa-título segue a linha ambígua: sintetizadores luminosos recebem mandolim e baixo melódico, enquanto Shaw arrisca um falsete inédito para anunciar “o início do mundo”.
Em “Let Me Grow and You’ll See the Fruit”, Bruce Lamont adiciona saxofone a um arranjo folk suave antes de a narrativa escorregar para a paranoia de aranhas imaginárias. Já “Blood”, com participação de Alan Duggan e Dan Fox (Gilla Band), mergulha em batidas programadas e timbres ásperos que lembram um feed digital interminável.
Outros destaques incluem o sludge lento de “Evil Evil Idiot”, onde Shaw descreve a satisfação de queimar alimentos, e o coro quase pop de “Joy”, inspirado na turnê de 2023 com Nourished by Time. O penúltimo ato, “I Need You”, usa sintetizadores desfocados para criar a atmosfera de uma sala de espera, pontuada por uma referência à versão britânica de “The Apprentice”.
Entre piadas secas e momentos de frágil otimismo, “Secret Love” expande o vocabulário musical do quarteto sem perder a ironia cotidiana que o público aprendeu a reconhecer.



