Juana Molina. Crédito: Capa de DOGA.

DOGA mostra Juana Molina aprofundando uma linguagem cada vez mais pessoal

Depois de oito anos sem lançar um álbum completo, Juana Molina retorna com DOGA, um trabalho que não reage ao mundo em convulsão ao redor, mas reafirma algo ainda mais raro: a existência de um tempo próprio. Enquanto o intervalo entre Halo (2017) e agora foi atravessado por pandemias, crises políticas, colapsos climáticos e uma aceleração tecnológica quase sufocante, o universo sonoro de Molina parece ter seguido outro ritmo — mais lento, mais interno, mais atento aos pequenos deslocamentos. DOGA não é um rompimento, tampouco uma resposta imediata ao presente. É um aprofundamento silencioso.

O álbum destila tudo aquilo que torna a obra de Juana Molina tão singular: melodias que flutuam sem pressa, texturas fantasmagóricas que se insinuam em vez de se impor, e estruturas construídas a partir da repetição e da contenção. As harmonias se instalam em um território austero e delicado, mudando de forma quase imperceptível, enquanto as letras surgem, desaparecem e retornam como fragmentos de um sonho que insiste em se reorganizar. Para quem acompanha sua trajetória, trata-se de um terreno familiar, ainda que cheio de desvios inesperados; para novos ouvintes, DOGA funciona como um convite direto para um mundo que só ela poderia construir.

As origens do disco remontam a 2019, quando Molina se uniu ao tecladista Odín Schwartz para uma série de apresentações batizadas de Improviset. A proposta era simples e radical: performances inteiramente improvisadas, sustentadas principalmente por sintetizadores e sequenciadores analógicos. Tudo era registrado, com a consciência de que aquelas músicas jamais poderiam ser recriadas da mesma forma. Desse material efêmero surgiram as sementes que, aos poucos, se transformariam em DOGA — um álbum que carrega a espontaneidade da improvisação, mas a molda com precisão e cuidado.

A abertura com “uno es árbol” funciona quase como um rito de entrada. Construída a partir de frases em loop, a canção vai alterando sutilmente seu significado à medida que se repete, explorando a tensão entre estar enraizada e se permitir desprender. A palavra inventada desárbol — algo como “desarborizar-se” — sugere um desmantelamento suave da identidade, estabelecendo desde o início o caráter meditativo do disco. A partir daí, cada faixa mergulha em um pulso hipnótico, uma força rítmica que parece delicada na superfície, mas que carrega um leve poder de desorientação logo abaixo.

Em “caravanas”, cordas dedilhadas se entrelaçam com sintetizadores mutáveis e espectrais, enquanto os vocais processados de Molina criam um dos momentos mais silenciosamente envolventes do álbum. A letra soa como um cântico protetor, evocando caravanas que conduzem alguém para o norte, para aquecê-lo, escondê-lo e curar sua dor com penas de otros colores, tristezas de diferentes matizes. Há algo de ritualístico na canção, uma sensação de cuidado e passagem segura, equilibrada entre conforto e inquietação.

O single “siestas ahí” apresenta um charme imediato, quase infantil, mas sustenta uma delicadeza mais profunda. A letra gira em torno da intimidade e da deriva, cantando sobre se aproximar da suavidade do outro e se dissolver nessa presença até flutuar, leve e atordoada. O arranjo reflete esse estado: guitarras sinuosas balançam como um movimento de ninar, enquanto camadas suaves de sintetizador conferem um brilho onírico e levemente melancólico. É uma canção doce, mas nunca completamente estável — sempre à beira de algo estranho.

Na segunda metade do disco, DOGA se permite expandir. As ideias de Molina ganham estruturas mais longas, de desenvolvimento paciente. “miro todo”, com seus nove minutos, é o primeiro grande mergulho prolongado: começa como uma expiração lenta e vai, aos poucos, se transformando em algo mais intenso e irregular. Linhas de guitarra ásperas se misturam a vocais reverberados, meio cantados, meio encantados, até que uma batida solta, quase proto-folk-punk, passa a conduzir a faixa por um caminho tortuoso. As letras funcionam como lampejos de consciência, alternando ações concretas com imagens surreais — marcianos, sombras, sapos brilhantes. Quando o baixo começa a se insinuar pela mixagem, a música deixa a meditação para se tornar invocação, firmemente ancorada no chão e, ao mesmo tempo, ligeiramente suspensa.

O encerramento com “rina soi”, também com nove minutos, leva a abstração ainda mais longe. Tons de sintetizador ocos e quase aquosos surgem como algo em formação contínua. Os vocais aparecem em uma língua inventada, processados e distorcidos, mais próximos de uma presença atravessando a névoa do que de palavras propriamente ditas. A faixa parece guiada por fragmentos: bipes, arpejos quebrados, texturas que oscilam nas bordas do silêncio. Aos poucos, esses elementos se acumulam em uma espécie de coro caótico, criando a sensação de um murmúrio coletivo dentro de um espaço essencialmente solitário. É uma das peças mais contemplativas do álbum e soa como um resumo sensorial de seu clima geral.

No fim, DOGA se afirma como continuidade e renovação ao mesmo tempo. Carrega a espontaneidade de suas origens improvisadas, mas transforma esse material em algo íntimo, focado e profundamente pessoal. Após oito anos longe de um álbum completo, Juana Molina não retorna com uma reinvenção abrupta, mas com um aprofundamento consistente — a confirmação de que sua música evolui em seu próprio compasso. DOGA é paciente, imersivo e idiossincrático: a obra de uma artista que insiste em moldar um mundo regido apenas por sua própria lógica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima