The Baggios – Brutown: 10 anos do início de uma trilogia de rock genuinamente brasileiro

The Baggios é uma banda formada em 2004, em São Cristóvão (SE), pelo guitarrista Júlio Andrade, hoje conhecido pelo nome artístico Julico, adotado também em sua elogiada carreira solo. Atualmente, o grupo conta ainda com Gabriel Perninha, na bateria, e Rafael Ramos, nos teclados.

Ao longo dos dois primeiros álbuns, o autointitulado The Baggios (2011) e Sina (2013), a banda funcionava como um duo, reproduzindo não apenas a formação, mas também a sonoridade blues rock popularizada por artistas como The Black Keys e, naturalmente, The White Stripes. A diferença estava na incorporação de elementos ligados à cultura nordestina, como o xote, que conferiam personalidade própria ao trabalho.

Brutown, terceiro disco da carreira, chegou em 2016 com a proposta de ampliar o escopo sonoro da banda. Para isso, Rafael Ramos foi incorporado ao grupo, contribuindo com teclados, backing vocals e baixo. A bela capa do álbum foi criada por Neílton, então guitarrista da clássica banda punk recifense Devotos e hoje também integrante da Nação Zumbi.

Também vindo da Nação Zumbi, Jorge du Peixe participa com vocais em Saruê, faixa cuja letra parece surgir diretamente do mangue pernambucano:

“Da lama constrói seu abrigo / O vejo bem mais que um inimigo / Faz sangrar sem comoção / É sem nação, é sem noção.”

A lama reaparece em Sangue e Lama, música inspirada no desastre ambiental ocorrido em novembro de 2015, em Mariana (MG), quando o rompimento da Barragem do Fundão, controlada pela Samarco em parceria com a Vale e a BHP Billiton, liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. Infelizmente, a canção não alcançou a repercussão que merecia, especialmente diante da repetição de uma tragédia semelhante em Brumadinho, em 2019.

De certa forma, embora não seja apresentada como uma ópera rock, Brutown possui um fio condutor bastante evidente: a experiência de viver nas grandes cidades. A fictícia cidade que dá nome ao álbum funciona como metáfora das dificuldades cada vez maiores enfrentadas por quem habita os grandes centros urbanos.

Viabilizado por meio de uma campanha de financiamento coletivo, o disco teve produção da própria banda em parceria com Felipe Rodarte e foi gravado no estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro. Além da participação de Jorge du Peixe, Brutown abre com a voz de Emmily Barreto, então vocalista da Far From Alaska e hoje integrante do Ego Kill Talent, em Estigma. A faixa já evidencia a mudança na sonoridade do grupo, especialmente pela inserção de metais nos arranjos, recurso que voltaria a aparecer em Vivo Pra Mim.

Miquin, sétima faixa do álbum, e Soledad, que encerra o disco, contam com a participação do violinista Felipe Ventura. Ambas deixam clara a influência da psicodelia nordestina dos anos 1970, de bandas como Ave Sangria, e, assim como outras composições do trabalho, misturam a vivência contemporânea aos elementos do folclore fantástico da região. É justamente essa combinação que faz do The Baggios uma banda de rock genuinamente brasileira, sem precisar recorrer a excentricidades para afirmar sua identidade.

Julico, guitarrista que merece mais reconhecimento pelo seu talento, também demonstra a influência de mestres do instrumento de outros países. Um exemplo está no timbre de guitarra que abre Como um Tiro de Bacamarte, bastante próximo da sonoridade de Jack White, referência natural para um grupo surgido nos anos 2000 e originalmente ligado ao blues rock feito em formato de duo. Falando em guitar heros nacionais, Fernando Catatau, da banda cearense Cidadão Instigado, também participa da já mencionada Soledad.

O álbum recebeu indicações ao Grammy Latino, à APCA e ao Prêmio Bravo!. Em conversa recente com Gastão Moreira no canal Kazagastão, Julico definiu Brutown como o primeiro capítulo de uma trilogia não planejada. Segundo ele, o personagem central busca forças para sobreviver em meio ao caos urbano, no trabalho que completa 10 anos no dia 23 de setembro. Em seguida, procura refúgio na natureza em Vulcão (2018) e conclui sua jornada de forma mais solar em Tupã-Rá (2021).

Mas essas são histórias para outra ocasião.

Ouça Brutown abaixo:

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