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Bruna Foss explora amor, distância e pertencimento no EP de estreia “Estrangeira”

Victor Persico Victor Persico •
Bruna Foss - Estrangeira Foto: Divulgação
Bruna Foss – Estrangeira Foto: Divulgação

Bruna Foss apresenta em Estrangeira seu primeiro EP: um trabalho de sete faixas que percorre português, inglês e italiano para contar a história de um relacionamento intercultural. Disponível nas plataformas digitais, o projeto parte de experiências vividas pela artista durante temporadas nos Estados Unidos e na Itália, abordando paixão, conflitos, distância e o processo de reconstrução após o fim de uma relação.

O título tem papel central na proposta. Derivada do latim extraneus, a palavra estrangeira pode representar tanto a mulher americana por quem Bruna se apaixonou quanto a própria cantora, brasileira vivendo longe de casa. Essa troca de perspectivas conduz o repertório e amplia o sentido das canções, que tratam não apenas de um relacionamento, mas também das mudanças provocadas pelo contato com outras culturas e pela busca de pertencimento.

Natural de Curitiba, Bruna Foss encontrou inspiração para o EP durante seus estudos em Grinnell College, nos Estados Unidos, e sua temporada em Milão, na Itália. Estudante de Música e Economia, a artista transformou experiências pessoais em composições que acompanham diferentes momentos de uma relação, desde o encantamento inicial até a separação. A distância geográfica também aparece como elemento importante, interferindo na maneira como os personagens se comunicam e enxergam o futuro.

Musicalmente, ESTRANGEIRA combina referências da MPB, bossa nova, samba-rock, folk, indie rock, blues e pop italiano. A mistura acompanha as mudanças de ambiente e idioma presentes nas letras, sem ficar restrita a uma única identidade sonora. Bruna procura aproximar suas referências brasileiras dos estilos que conheceu durante as viagens, uma proposta que ela própria define como uma tentativa de “abrasileirar” novos gêneros.

A narrativa começa com Canção de Abril, composição que utiliza a bossa nova para apresentar a relação ambígua da artista com o Brasil. A letra alterna entre fugir do país e desejar voltar para ele, colocando a saudade e a sensação de não pertencer completamente a um lugar no centro da história. A música foi escrita durante a temporada na Itália, em um período de afastamento do relacionamento que inspirou o projeto.

Essa relação ganha contornos mais específicos em Americana, primeiro single do EP. Com uma base de samba-rock, a composição nasceu como uma declaração à então namorada de Bruna. O término aconteceu quando a música já estava praticamente pronta, mas a cantora decidiu manter o lançamento por entender que a canção também registrava uma parte importante de sua experiência. A escolha reforça uma das ideias que atravessam o trabalho: o fim de uma relação não apaga o que foi vivido.

Em outros momentos, o repertório deixa o encantamento inicial de lado para lidar com as consequências da separação. Medo do Escuro aborda a dificuldade de abandonar uma versão idealizada de si mesma construída durante o relacionamento. A faixa aproxima elementos do folk de texturas eletrônicas e apresenta uma interpretação mais voltada ao pop. Já Talvez, segundo single do projeto, começa com uma abordagem folk e ganha intensidade ao incorporar elementos do indie rock. A letra trabalha com frases que mudam de sentido ao longo da música, refletindo a indecisão entre esquecer alguém e preservar a lembrança.

A experiência italiana aparece de maneira mais direta em La Vita, parceria com a cantora Silvia Esposito, do projeto elettricaessenza. A composição aproxima o pop italiano da MPB e aborda a vontade de conhecer novos lugares sem perder o desejo de retornar a alguém. A colaboração surgiu durante a passagem de Bruna Foss por Milão, onde as duas se conheceram no CPM Music Institute. A faixa também dialoga com a experiência de artistas brasileiros que vivem na Itália, como o grupo Selton.

A música que dá nome ao EP representa uma mudança de perspectiva. Com referências do rock e do blues brasileiro dos anos 1980, “Estrangeira” aproxima a cantora de artistas que fizeram parte de sua formação, como Rita Lee, Cássia Eller e Cazuza. Depois de percorrer as etapas de um relacionamento, a composição aponta para uma postura de maior independência, com a personagem reconhecendo suas próprias contradições e assumindo a decisão de seguir em frente.

O encerramento fica por conta de aindatechamo.mp3, gravação intimista de voz e violão apresentada como uma espécie de nota de voz. A canção mantém aberta a história que conduziu o EP e funciona como ligação para o próximo trabalho de Bruna. A composição ganhará novos arranjos em Ainda Te Chamo de Amor, previsto para janeiro de 2027, e deverá abordar o reencontro da cantora com a americana durante o período na faculdade.

Em ESTRANGEIRA, Bruna Foss utiliza uma experiência afetiva como ponto de partida para discutir questões que vão além de um romance. A convivência entre idiomas, referências musicais e diferentes lugares dá unidade a um repertório que acompanha as transformações de quem vive longe de casa e precisa rever suas próprias escolhas. A mistura de estilos nem sempre segue uma direção única, mas essa variedade faz parte da proposta de registrar uma fase marcada por deslocamentos, descobertas e despedidas.