Everything Must Go – O renascimento do Manic Street Preachers completa 30 anos

Edição de luxo de 10 anos do disco Everything Must Go, do Manic Street Preachers – Arquivo pessoal Virgilio Migliavacca.

Em 1994, na mesma semana em que o Reino Unido recebia o lançamento de Definitely Maybe, disco que ajudaria a inaugurar a explosão do britpop e a euforia cultural britânica dos anos 90, também chegava às lojas The Holy Bible, terceiro trabalho de uma banda oriunda do País de Gales chamada Manic Street Preachers. E enquanto boa parte da Inglaterra começava a celebrar um novo momento de autoestima cultural e político, que culminaria na ascensão de Tony Blair e do Novo Trabalhismo, o Manic Street Preachers caminhava exatamente na direção oposta.

The Holy Bible era um disco sombrio e profundamente autodestrutivo. Muito de seu conteúdo vinha da mente do guitarrista Richey James Edwards, que transformava em letras os próprios conflitos internos, os problemas de saúde mental, o abuso de drogas, a anorexia e uma visão profundamente desencantada do mundo. Musicalmente, o grupo abandonava quase por completo o hard rock mais festeiro e glamouroso dos dois primeiros discos, ainda carregados de ecos de Guns N’ Roses, para criar algo mais ligado ao punk e ao pós-punk. Era um álbum que parecia refletir também a realidade social do País de Gales naquele momento, especialmente o colapso da indústria do carvão, principal fonte econômica da região de onde eles vinham. Enquanto o restante da ilha celebrava uma nova onda de prosperidade, o Manic Street Preachers soava como o retrato dos que haviam ficado para trás.

O impacto de The Holy Bible foi intenso, mas apenas para os já iniciados. Comercialmente, o disco fracassou e já colocava em dúvida a continuidade da banda, considerando também os problemas enfrentados por Richey. E a tragédia se tornaria ainda maior poucos meses depois, quando o guitarrista e, até então, principal compositor do grupo foi encontrado próximo à ponte Severn, no País de Gales. O guitarrista desapareceu sem deixar rastros e seu corpo jamais foi encontrado (em 2008, foi oficializada sua morte presumida). O sumiço transformou-se em um dos grandes mistérios da música britânica e deixou o futuro do grupo completamente indefinido.

Com o tempo, os integrantes remanescentes James Dean Bradifield (guitarra e voz), Nicky Wire (baixo) e Sean Moore (bateria), perceberam que, caso decidissem pela manutenção da banda, seria impossível seguir repetindo o que foi feito em seu último trabalho. Wire disse que outro disco nos moldes de Holy Bible certamente levaria a falência do grupo. O próprio Richey, antes do desaparecimento, já havia comentado sobre a vontade de explorar algo mais eletrônico, inspirado por Screamadelica, clássico de 1991 do Primal Scream, embora os colegas enxergassem que aquele tipo de som já havia evoluído no trabalho de bandas como Nine Inch Nails. Era necessário encontrar uma nova identidade.

E ela começou a surgir logo no primeiro ensaio do trio remanescente. Dali nasceu A Design for Life, canção que devolveu ao grupo um senso de propósito e continuidade. O trio partiu então para a Normandia, no norte da França, tentando fugir da pressão da imprensa britânica e do sensacionalismo em torno do desaparecimento do guitarrista. Ao lado do produtor Mike Hedges, começaram a construir aquele que seria o disco mais importante da carreira da banda: Everything Must Go.

A partir de A Design for Life, o Manic Street Preachers passou a incorporar outros elementos ao seu som, como o trompete de Kevin Carter (gravado pelo baterista Sean Moore), faixa inspirada tanto no genocídio de Ruanda quanto na trajetória trágica do fotógrafo sul-africano que dá título à música, e a harpa de Small Black Flowers That Grow in the Sky, que ajuda a criar uma delicadeza inédita no som do grupo. Mas a principal mudança sonora viria das orquestrações espalhadas por boa parte do álbum, o que acabaria se tornando uma das grandes marcas registradas do Manic Street Preachers dali em diante. Segundo o grupo, o produtor do álbum foi escolhido justamente por conta da inserção desse tipo de orquestração em canções do grupo Siouxsie & The Banshees no passado.

Edição de luxo de 10 anos do disco Everything Must Go, do Manic Street Preachers – Arquivo pessoal Virgilio Migliavacca.

Ao mesmo tempo, havia ainda elementos que conectavam Everything Must Go ao passado da banda. A guitarra de James Dean Bradfield seguia com um timbre semelhante ao de seu herói Slash e pelo hard rock que eles amavam nos primeiros anos. Além disso James, no documentário sobre os 10 anos do disco, diz que só a partir daquele momento conseguiu se enxergar como um vocalista de verdade, pois o som mais melodioso deixava espaço para que ele pudesse transmitir a mensagem com maior alternância de dinâmica nas músicas.

É notável perceber que, mesmo com um disco denso e marcado pela tragédia, em contraponto a euforia reinante no britpop reinante na época, os Manics conseguiram, em seu 4º trabalho, finalmente alcançar o reconhecimento de público e de crítica, visto os prêmios recebidos no Brit Awards de 1997 (melhor álbum e banda).

Trinta anos depois, Everything Must Go – tíulo retirado de uma peça escrita pelo irmão do baixista – permanece como um impressionante documento de sobrevivência. Um disco sobre seguir em frente mesmo quando tudo parece perdido. Porque, para quem fica e precisa lidar com o luto, talvez não exista alternativa além de continuar caminhando.

Para além de Everything Must Go, quer se aprofundar mais no trabalho do Manic Street Preachers? O Podcast Linha Alternativa serve como uma porta de entrada para a discografia dos galeses. No quadro Puxando o Fio da Meada, o Linha Alternativa traz os primórdios, influências e artistas contemporâneos, os disco clássicos, grupos que foram influenciados e, por fim, os trabalhos para os já iniciados. Tudo para quem quer começar a ouvir — ou revisitar — um dos nomes mais importantes do rock britânico. Só dar o play logo abaixo!

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