Quando o Shame surgiu no final da década de 2010, fazendo parte daquela nova leva de bandas do sul de Londres que recuperavam o espírito inquieto do pós-punk, muitos críticos se perguntaram até onde o grupo poderia ir. O álbum de estreia, Songs of Praise (2018), colocou a banda no mapa com sua fúria juvenil e letras que miravam o vazio político britânico. Drunk Tank Pink (2021) expandiu os horizontes sonoros, mostrando uma busca por experimentação e ritmo. Já Food for Worms (2023) parecia um ponto de virada: mais vulnerável, menos abrasivo, mas ainda inquieto.
Dois anos depois, o quinteto liderado por Charlie Steen retorna com Cutthroat, lançado em setembro de 2025 pela Dead Oceans, e a sensação é de que a banda encontrou uma nova síntese de sua trajetória. Produzido por John Congleton, nome que já trabalhou com St. Vincent e Swans, o disco soa como um passo ousado e coeso, onde o pós-punk de raízes secas se mistura a grooves dançantes, eletrônica e até ecos de disco music.
O título Cutthroat (“garganta cortada”) não poderia ser mais apropriado. As doze faixas têm a precisão de um golpe rápido, com pouco espaço para respiro. A faixa-título resume bem essa estética: baixo pulsante, guitarras cortantes e uma energia de hino de estádio que lembra o Kasabian em seus momentos mais expansivos.
Há, no entanto, uma variação constante de humor e intensidade. “Cowards Around” traz uma crítica direta à desigualdade social da Inglaterra pós-austeridade, enquanto “Nothing Better” brinca com sarcasmo sobre a apatia cotidiana. Já “Quiet Life” e “To and Fro” revelam o outro lado do Shame: canções sobre fragilidade, estagnação e a tentativa de romper com ciclos de frustração.
A grande surpresa está em “Lampião”, faixa que mergulha em referências ao folclore brasileiro e inclui versos em português — um gesto inesperado, mas que se encaixa no espírito de reinvenção do álbum.
Se em Food for Worms o grupo já havia explorado emoções mais vulneráveis, em Cutthroat essa dimensão convive com um lirismo mordaz, cheio de sarcasmo e crítica. Steen não poupa ironia ao retratar ganância, hipocrisia e contradições humanas, mas também dá espaço para personagens em crise, buscando escape e sobrevivência. É justamente essa alternância entre brutalidade e empatia que torna o disco tão vivo.
A crítica internacional recebeu Cutthroat com entusiasmo. Revistas como a Dork classificaram o álbum como a obra mais ambiciosa do Shame até agora, enquanto veículos como NME e Paste destacaram a capacidade do grupo de expandir sua paleta sonora sem perder identidade. Há quem veja no disco um divisor de águas: a confirmação de que a banda pode dialogar com públicos além do nicho pós-punk, sem se render ao óbvio.
O Shame nunca foi uma banda acomodada, e Cutthroat é prova disso. Em pouco mais de quarenta minutos, o grupo transita entre agressividade e melodia, eletrônica e guitarras, protesto e confissão íntima. O resultado é um álbum que funciona tanto como comentário social quanto como convite à catarse coletiva.
Para quem acompanha desde os primeiros riffs raivosos de Songs of Praise, a sensação é clara: o Shame amadureceu sem perder a urgência. Cutthroat não é apenas mais um capítulo da discografia — é um disco que amplia horizontes e reafirma o quinteto londrino como uma das bandas mais relevantes de sua geração.



