Resumo
- ▪ "Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall" é o primeiro disco independente de Caroline Rose, pelo selo SUCK.
- ▪ O álbum foi gravado com John Congleton e fecha com "Everything in Its Right Place", faixa que abria "year of the slug".
- ▪ Rose cita shoppings, preppers, fast food, Muscle Beach, maconha, látex e westerns spaghetti como influências.
Há algo de simétrico na trajetória recente de Caroline Rose. A primeira faixa do álbum anterior “year of the slug” (2025), agora fecha o novo disco “Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall”. Aquele trabalho reunia gravações feitas no Garageband, disponíveis só no Bandcamp. Já o novo é o primeiro lançamento independente de Rose pelo selo SUCK e foi gravado com o produtor John Congleton, que deu mais imediatismo a canções antigas e completou o repertório com material inédito.
A faixa em questão é “Everything in Its Right Place”, agora numa versão mais polida e com o título devidamente capitalizado. Para Rose, ela é começo e fim de tudo: uma euforia bela e imperfeita, próxima do mundo que a artista lembra de querer criar na adolescência, um refúgio contra o caos que acabou engolindo os personagens do disco, narrador incluído.
Em seu trabalho mais barulhento até aqui, Rose passa por “decisões alienígenas”, cantos estranhos da cultura americana e becos da memória que muita gente preferiria abandonar. Como sugere o título, o resultado mistura otimismo terno e nostalgia sem verniz. Em entrevista, a artista falou das sete referências por trás do disco.
A primeira são os shopping centers. O título vem de um centro de compras de Long Island, onde Rose cresceu, hoje chamado Walt Whitman Shops. Rose acha graça de um shopping homenagear um poeta ligado à classe trabalhadora, que era boêmio, queer e morou com a mãe até os 40 anos. Os centros comerciais também aparecem em “Conversation with Shiv (AKA liquid k song)” e em “Everything in its Right Place”, e as lembranças de tédio na adolescência alimentam o disco.
A outra metade do título nasceu no oeste do Texas, onde um fã a levou para ver ranchos antigos. Numa placa, Rose leu sobre “gentling”, uma forma não violenta de domar cavalos, com confiança e delicadeza, sem chicotes nem cordas. Ela ligou a ideia à dificuldade de ser jovem num ambiente espiritualmente falido.
A segunda influência são os preppers. Rose conta que adora conversar com homens mais velhos sobre bunkers e autossuficiência, e que gravita em torno de gente fora do eixo, de grupos com mentalidade de seita a pessoas solitárias. Na internet, o algoritmo ajuda, mas ela diz detestar ficar online. Em Los Angeles, onde mora, vê essa estranheza nos cartazes colados em postes.
A terceira é o fast food, parte tão entranhada da cultura americana, entre rodovias de 12 pistas e drive-throughs. Faixas do disco citam o Crunchwrap Supreme e o Hardee’s. Rose gosta de folk e country, mas quer uma versão hipermoderna do americana “algo com uma bazuca acoplada”, mais fiel ao absurdo atual.
A quarta é Muscle Beach, em Los Angeles. A artista se fascina por quem dedica a vida a transformar o corpo e tem uma tatuagem de um homem musculoso no braço. Ela publicou um vídeo como inspiração para “Calm”, sobre o ideal americano do exagero.
A quinta é a maconha. Rose diz que a erva a deixa paranoica e conta episódios de alucinação, como a de uma figura com metralhadora no corredor. Ela vê no assunto uma extensão da realidade “supersize” que a fascina, e em “Calm” aparece a ironia de parecer tranquilo enquanto desmorona por dentro. Um entrevistador chamou isso de “masking”, ao que ela respondeu rindo que sim.
A sexta é o látex, mais uma subcultura que a atrai. Rose se descreve como uma voyeur curiosa, que enxerga beleza na textura e na sensualidade desse universo, e diz que as pessoas o tornam mais estranho do que é.
A sétima são os westerns spaghetti. Nas viagens de família por parques nacionais, Rose cresceu entre motéis cafonas na Rota 66 e atrações de beira de estrada. Para ela, o faroeste italiano é uma releitura que vira algo próprio, e há ainda quem se inspire na versão da versão. Essa fusão explica, diz, por que sua carreira será sempre uma exploração de sons e estilos.
“Gentling the Horse at the Walt Whitman Mall” já está disponível pelo selo SUCK Records.



