Hoje em dia, as plataformas de streaming tornaram-se uma fonte frequente de pesquisa para os amantes de música— o que, por vezes, pode ser problemático. Ao ouvir o disco A Paixão Segundo Cabaret, tomei como referência a data indicada ali: 2 de setembro de 2016. Só depois, pesquisando mais sobre o trabalho, descobri que seu lançamento foi cercado de incertezas e que sua composição remonta a 2010, tendo sido finalmente lançado em 2014 (e em CD em 2015), após longa espera. O que parecia ser um bom motivo para escrever sobre o disco — a efeméride dos 10 anos de lançamento — logo caiu por terra. Ainda assim, por se tratar de um belo e infelizmente pouco comentado exemplar do rock nacional da década passada, resolvi escrever sobre ele.
O Cabaret foi uma banda carioca liderada pelo vocalista e jornalista Márvio dos Anjos, que já havia lançado um disco em 2007. Ter uma banda de rock no Brasil nunca foi tarefa fácil, e a partir dos anos 2000 os espaços em rádio e TV rarearam ainda mais, relegando os grupos a um underground em constante desenvolvimento, com todas as dificuldades impostas pelo mercado. Isso fez com que muitos bons registros da época fossem ouvidos por poucas pessoas, o que não foi diferente com A Paixão Segundo Cabaret, segundo álbum da banda.
É uma pena, pois trata-se de um rock com forte potencial radiofônico, repleto de refrões marcantes e bons ganchos. Além disso, é um álbum muito bem produzido por Iuri Freiberger, integrante da banda gaúcha Tom Bloch, que já havia assinado clássicos do indie nacional como Carteira Nacional de Apaixonado, de Frank Jorge (2000), e Grandes Infiéis, do Violins (2005). Além de Márvio, o disco contou com Felipe Aranha (guitarras), Marcelo Caldas (baixo) e bateristas convidados.
O álbum aborda um tema atemporal: a paixão, em todas as suas fases. Não apenas nos momentos felizes, tão caros à música pop. Em entrevista ao portal Scream Yell na época do lançamento, Márvio explicou que cada canção “seria uma etapa, uma fase vivida por alguém que se deixa apaixonar”, complementando: “eu ia fazer com a paixão algo semelhante ao que a psicanalista Elizabeth Kübler-Ross (negação, raiva, barganha, depressão, aceitação) fez com o processo do luto, que ela dividiu em cinco fases”.
Na intensa abertura, com a faixa-título, o eu lírico encara a ressaca de um término recente, prometendo “nunca mais vou deixar o amor entrar”. Já na terceira faixa, Animal, surge a euforia da vida noturna, embalada por um ótimo arranjo de metais. Os vocais abafados de Um Dia no Paraíso e o baixo à la New Order de Bela e Vulgar retratam a paixão que cega, ressurgindo com força. Um dos destaques é a sugestiva Dentro de Você, com a participação mais do que apropriada de Ney Matogrosso, artista habituado às provocações de toda ordem.
Conforme o álbum se aproxima do fim, mais um ciclo da paixão se encerra, entre baladas ao piano (Já é Tarde) e reflexões sobre as limitações que não deveriam acompanhar a chegada do amor, além das memórias que permanecem enquanto a vida segue rumo às próximas paixões.
Dito isso, convido você a se apaixonar também por esse disco no link abaixo:



