Na primeira vez que ouvi Secret Love novo trabalho do Dry Cleaning, fiquei com a sensação de que nada mudou. O elemento mais imediato segue sendo a voz de Florence Shaw. Seu vocal falado e monocórdico, continua sendo ao mesmo tempo a identidade e a maior limitação da banda. Dito isso, é fácil cair na tentação de achar que o grupo lança sempre o mesmo disco, justamente porque os vocais raramente se afastam desse registro. Mas isso seria um erro.
Há que se dizer que esse tipo de registro remonta aos resmungos, por vezes incompreensíveis, do saudoso Mark E. Smith, do The Fall, e de contemporâneos como o Sleaford Mods. Além disso, como é possível verificar ao longo do andamento do disco, Florence, mesmo que em curtos espaços de tempo, chega a arriscar uma mudança.
Mas, por baixo dessa repetição de tom, o instrumental trabalha com muito mais variações do que parece à primeira audição. O baixo de Lewis Maynard segue sendo um dos motores da banda, sempre em destaque, conduzindo as músicas enquanto as guitarras de Tom Dowse apresentam uma grande variedade de texturas (completa a formação o discreto baterista Nick Buxton).
A produção de Cate Le Bom, que participa em várias faixas com programações e sintetizadores, aproxima o trabalho de seu último disco solo, o belíssimo Michelangelo Dying (2025) e acaba adicionando mais camadas a serem descobertas em novas audições, bem como intervenções pontuais de saxofone e bandolim. O processo de gravação também passou por sessões com Jeff Tweedy, do Wilco, além de colaborações com Alan Duggan e Daniel Fox, ambos da Gilla Band.

A faixa-título traz um momento curioso: Florence se aproxima de algo que realmente soa como canto. É um desvio pequeno, mas significativo dentro da estética da banda. Mais à frente, Joy, mostra talvez o momento em que Florence mais se afasta da apatia característica. Há ali uma tentativa de entusiasmo — ou pelo menos de imaginar um mundo menos hostil? As letras, de um modo geral, refletem a apatia e o cansaço expressos na voz de Shaw.
Don’t Press Me, por exemplo, demonstra a pressão para que exerçamos um papel ativo na socidade (“I need to serve a useful purpose / I desire very much a place in society”). Já em Solitude, o clima é de autodepreciação, na cobrança que estejamos sempre em grupo, felizes e dispostos a mais um story. Blood e Evil Evil Idiot formam a sequência de guitarras mais pesadas, remetendo aos álbuns anteriores do grupo.
I Need You é a música mais experimental do disco, e pode apontar um caminho menos convencional para o futuro, com uma bateria tribal, e a presença curiosa de um clarinete, deixando a faixa com um toque mais dark ambient.
No fim das contas, o Dry Cleaning não parece interessado em se reinventar radicalmente. Em vez disso, a banda parece ter conseguido algo mais difícil: construiu uma identidade tão particular, que pequenas variações já bastam para manter tudo ainda interessante.
Infelizmente, o que torna o grupo tão singular — a voz quase indiferente de Florence — talvez seja também o maior obstáculo para que mais gente embarque nessas viagens. Para quem entra no jogo, porém, cada nova escuta revela que há muito mais acontecendo do que aquela primeira impressão de “mais do mesmo”.



