Dewey – Summer on a Curb

O shoegaze já não é exatamente uma novidade dentro da música pop. O gênero surgiu no final dos anos 80, com o precurssor The Jesus and Mary Chain. Mas foi em 1991 que o estilo ganhou sua pedra fundamental: Loveless, do My Bloody Valentine, com a já clássica combinação de uma parede de guitarras ruidosas e vocais etéreos. Aquele disco não apenas consolidou o gênero — de certa forma, também definiu suas regras não escritas, que viriam a ser seguidas por incontáveis bandas ao redor do mundo nas décadas seguintes.

Curiosamente, mais de trinta anos depois, o shoegaze vive um momento de popularidade. Muito disso se deve à redescoberta do gênero por gerações mais jovens, especialmente através do TikTok, onde trechos de músicas de grupos clássicos do subgênero passaram a circular com força. Como costuma acontecer nesses ciclos de redescoberta, novas bandas começaram a surgir, reinterpretando a cartilha do estilo.

O que se percebe em boa parte dessas bandas recentes é um shoegaze menos hermético do que aquele de seus anos iniciais. As tais paredes de guitarras continuam lá (quase sempre), mas muitas vezes aparecem acompanhadas de ganchos mais pop, melodias mais solares e uma influência de outras formações de guitarras distorcidas, nascidas nos EUA no final dos anos 80 e estabelecidas nos anos 90, como o Superchunk e o Dinosaur Jr. É uma sonoridade que suaviza os aspectos mais experimentais do gênero e funciona bem como porta de entrada para quem está chegando agora.

Nesse contexto aparece o Dewey, banda parisiense que, apesar da origem, opta por cantar em inglês. O grupo lançou em fevereiro o álbum Summer on a Curb, um trabalho que se encaixa com bastante conforto dentro dessa nova onda.

Não é um disco que pretende reinventar o gênero. Pelo contrário: joga no seguro, respeitando as convenções sonoras que já se tornaram familiares para quem acompanha esse tipo de música. Ainda assim, entrega bons momentos. Há em várias faixas uma atmosfera muito específica, quase cinematográfica, que remete à adolescência, a fins de tarde na rua, àquela sensação de quando a vida parecia um pouco mais simples.

É comum ouvirmos críticas à nostalgia na música atual, como se revisitar emoções do passado fosse sempre um sinal de falta de imaginação. Mas a nostalgia também pode ser um recurso poderoso. Aqui, ela aparece de forma leve e funciona tanto para não iniciados quanto para ouvintes mais antigos, que inevitavelmente acabam projetando suas próprias memórias nessas camadas de guitarras.

Nem toda música precisa carregar grandes ambições estéticas, filosóficas ou conceituais. Às vezes, um disco cumpre bem o seu papel simplesmente criando uma atmosfera agradável, capaz de nos transportar por alguns minutos para outro lugar. A proposta de Summer on a Curb parece ser exatamente essa: investir em algo simples, nos lembrar de bons momentos, e quem sabe ajudar a criar alguns novos também.

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