O duo pernambucano Barbarize lançou o videoclipe de Mangue, faixa presente em seu álbum de estreia, MANIFEXTA. A obra conta com a participação especial de Fred Zero4, fundador do Mundo Livre S/A e um dos principais nomes do movimento manguebeat, reforçando o elo entre gerações e reafirmando a força simbólica do mangue como território político, cultural e afetivo.
Mais do que uma colaboração musical, a canção aprofunda o diálogo do Barbarize com o lugar onde nasceu: a Comunidade do Bode, no bairro do Pina, no Recife. É a partir desse território que o duo constrói uma narrativa que atravessa memória, pertencimento e denúncia social, conectando o legado do manguebeat às urgências do presente.
Segundo Bárbara Vitória e YuriLumin, Mangue funciona simultaneamente como reverência e manifestação crítica. A música evoca a persistência das desigualdades urbanas em uma região marcada por contrastes extremos. Enquanto a avenida principal concentra hotéis, prédios e restaurantes de luxo, as ruas internas da comunidade ainda enfrentam a ausência de saneamento básico e o descaso do poder público. Para o duo, o “ciclo do caranguejo” denunciado por Chico Science segue atual, assumindo novas formas na sociedade contemporânea.
A aproximação com Fred Zero4 nasceu de um reconhecimento artístico mútuo. Após conhecer o trabalho do Barbarize, o músico convidou o grupo para dirigir um videoclipe do Mundo Livre S/A. A participação em “Mangue”, portanto, surge como um desdobramento natural dessa troca criativa, ampliando o diálogo entre passado e presente da música pernambucana.
Musicalmente, a faixa parte do trap, dialoga com o boombap e incorpora riffs de guitarra que adicionam organicidade à composição. A percussão de Maurício Badé se integra ao beat eletrônico, enquanto a flauta contribui para a construção de uma atmosfera sensível e ritualística, equilibrando elementos urbanos e tradicionais.
Na letra, o mangue surge como símbolo de origem e resistência. Versos como “Barbarize nasceu da lama” reafirmam a relação do grupo com as margens da cidade, enquanto referências a animais do manguezal funcionam como metáforas de sobrevivência coletiva. O trecho final da música incorpora um excerto de Homens e Caranguejos, de Josué de Castro, ampliando o alcance social e histórico da narrativa.
O videoclipe acompanha essa proposta ao tratar o audiovisual como extensão do discurso da canção. Com referências ao afro-surrealismo e ao afro-futurismo, a obra articula natureza e tecnologia como forças complementares. A cenografia, assinada por Juliabe Balbino em parceria com o Barbarize, reforça o mangue como organismo vivo e espaço de disputa simbólica.
Para o duo, o mangue segue sendo berçário e força criativa. Ao transformar aquilo que historicamente foi marginalizado em potência estética e política, o Barbarize reafirma sua identidade e atualiza, com voz própria, o espírito crítico que marcou o manguebeat.



