O show de lançamento de Cidrerê, novo trabalho de Poty apresentado na íntegra no Gravador Pub, deixou claro que uma das principais qualidades do artista é a capacidade de transitar entre universos muito diferentes. Explico: Seu disco anterior, Homens & Mundos (2023), era um trabalho mais denso, experimental e carregado de temas amplos, sobre política especialmente. Inclusive, o disco de 2023 é um dos meus preferidos da década até agora.
Enquanto Homens… era “macro”, Cidrerê aponta justamente para o caminho oposto, para o cotidiano e para memórias afetivas dos verões passados na praia de Cidreira, no litoral norte gaúcho — um lugar muitas vezes tratado de forma pejorativa por não carregar o glamour associado a outras praias do Brasil ou do exterior. Poty transforma esse cenário aparentemente banal em matéria-prima para um disco extremamente pessoal.
Essa mudança também aparece diretamente na sonoridade. Cidrerê soa caseiro em vários momentos: voz e violão, arranjos minimalistas e um clima de proximidade. Em outras faixas, entram amigos e colaboradores, como o guitarrista Andrio Maquenzi (da já clássica Superguidis), Carlinhos Carneiro (ex-Bidê ou Balde), Ana Matielo e o produtor Fu_k The Zeitgeist, que também participou ao vivo na bateria. O formato da apresentação refletiu bem essa dinâmica do disco: em alguns momentos, Poty aparecia sozinho no palco; em outros, acompanhado apenas de parte da banda; em outros ainda, com formação completa. Essa alternância deu bastante movimento à primeira metade do show, dedicada à execução integral do álbum.
Como dito anteriormente, Poty é um artista versátil, capaz de sustentar duas propostas artísticas quase independentes entre si. Nessa noite, nada mais apropriado que dar espaço para o mais introspectivo, do disco sendo lançado no show, em detrimento aos sons mais pesados e contestadores, como os do single Monstros Ideais (2024). São caminhos muito distintos, mas unidos pela força de sua voz marcante. Sendo assim, na segunda parte da apresentação, Poty apropriadamente revisitou outras músicas que conversam em espírito com o clima do disco de 2026, como Sobre o Vento e a Paz e Pescadores de Desertos.
O público compareceu em bom número ao aconchegante Gravador Pub, e o encerramento do show reforçou ainda mais a estética nostálgica do trabalho. As fitas cassete vendidas ali parecem dialogar perfeitamente com o espírito de álbum, como se o disco pedisse mesmo para ser ouvido num toca-fitas durante um verão no litoral gaúcho, como bem colocado por Poty em determinado momento.
Sabemos das dificuldades, mas num mundo ideal, esse show circularia em muitos litorais por aí. Se aparecer na sua praia, não perca.







